Nas Fronteiras da Loucura
Manoel P. de Miranda - Divaldo Pereira Franco
Centro Espírita Nosso Lar – Grupo de Estudos das obras
de André Luiz e de Manoel Philomeno de Miranda.
20. Raízes da enfermidade de Julinda
Na seqüência, Dr. Bezerra voltou a examinar Julinda, esclarecendo que a gênese real de sua alienação se encontrava num desforço espiritual, que deu origem a uma problemática obsessiva.
Manoel P. de Miranda, a convite do Benfeitor, fixou a atenção na sede da consciência da enferma, na região dos folículos cerebrais, no córtex encefálico, sintonizando o pensamento na sua faixa psíquica. Imediatamente passou a ver e a ouvir confusos quadros e ruídos que se misturavam em verdadeira miscelânea de perturbação.
A pouco e pouco foram-se definindo as cenas e ele pôde contemplar uma altercação entre a enferma e Roberto, seu esposo. Este tentava convencê-la da necessidade de terem um filho, mas ela retrucava:
"Não aquiescerei a esta exigência descabida. Não é justo que nos amarremos em plena juventude a compromissos com filhos, malbaratando as nossas oportunidades de prazer e gozo. Não me permitirei deformar, mediante uma gestação ingrata e não desejada, para atulhar o meu ambiente doméstico com a algazarra infantil que, convenhamos, eu detesto".
O marido argumentou: "O melhor período para a construção da família é a juventude dos cônjuges, que se encontram no apogeu das forças e das faculdades, propiciando uma educação em bases de paciência e disciplina à prole em formação”.
“Nessa fase da idade, os perigos da délivrance são menores e a recuperação mais rápida, reservando-se para a velhice o justo repouso, em razão de a família estar formada, e vivendo os filhos, já adultos, as suas próprias experiências".
A mulher respondeu-lhe, porém, encolerizada, asseverando não aceitar a maternidade, em hipótese alguma. Minutos depois, outra cena mostrava um sonho no qual um Espírito requeria a ela oportunidade para renascer, prometendo-lhe carinho e ajuda.
"Eu te perdoarei, suplicava o candidato, em lágrimas, todo o mal que me fizeste, recebendo-me nos teus braços, como parte de ti, a fim de que eu recomece ao teu lado. Ajuda-me, hoje, a fim de que eu te socorra mais tarde". Julinda repelira, contudo, aquele apelo, julgando-se vítima de um pesadelo que a arrojara aos infernos. (Cap. 3, pp. 35 e 36)
21. O aborto
Vendo que Julinda se mantinha impermeável à solicitação do Espírito, uma Entidade Benfeitora pediu-lhe que se acalmasse, explicando que a pessoa que lhe implorava uma oportunidade era alguém vinculado ao seu passado:
"És devedora, em relação a ela. Todavia, te desculpará o deslize pretérito, desde que lhe concedas a ensancha futura. A vida física é breve, demorando o curto prazo de uma experiência. Aproveita-a, a benefício da tua imortalidade. Não recalcitres ao aguilhão beneficente. Juventude e aparência são de muito curta duração. Ouve-a e aquiesce".
A moça, porém, estampando na face uma máscara de horror, bradava: "Estou no inferno; os satanases me perseguem. Sou inocente! Deixem-me em paz. Odeio filhos! Não os quero, não os aceitarei!" As cenas se apagaram e surgiram outras, não menos graves. Numa delas, a paciente aparecia desesperada após haver constatado estar grávida. Sem avisar o esposo, concertou o aborto numa clínica que se dedicava ao monstruoso cometimento.
Na noite da véspera, sonhou que alguém a segurava, fortemente, suplicando-lhe amparo. "Não me mates o corpo, minha mãe, rogava o reencarnante. Necessito volver, precisamos estar juntos. Ajuda-me... Se não me atenderes..." A infeliz lhe respondeu: "Prefiro a morte a ser mãe. Odeio-te. Nunca te receberei, nunca!"
O Espírito que animava o feto apresentou-lhe, então, um semblante tão terrificante que ela despertou, aos gritos. No dia seguinte, apesar de ainda ouvir o apelo daquele que seria seu filho, compareceu à Clínica e, duas horas depois, indisposta e livre, retornou ao lar.
Nos minutos precedentes ao aborto, por pouco não recuou, em razão de sentir-se louca, tal o desespero que dela se apossou em face do que escutava: "Se me matares, eu te desgraçarei. Salva-me, infame! E' tempo, ou, do contrário, rolarão os séculos na fúria da minha vingança, sem que tenhas paz..."
(Cap. 3, pp. 37 e 38)
22. As conseqüências do crime
Consumado o aborto, iniciou-se o calvário de Julinda. A pugna que se travava além dos olhos físicos fazia-se constrangedora. O Espírito expulso do ventre materno não se desligara da matriz uterina, influenciando com a mente vigorosa e revoltada o organismo que se negara a sustentá-lo.
Sentindo-se injustamente repudiado, apesar de suas reiteradas súplicas, ele assenhoreou-se lentamente da criminosa, pela incidência telepática, conseguindo desarticular-lhe o equilíbrio da razão. Atada ao Espírito de quem desejara libertar-se, nos parciais desprendimentos pelo sono, Julinda passou a defrontá-lo em metamorfoses dolorosas e apavorantes.
Via-o deformado, agressivo, subitamente diluindo-se, como se acionado por estranho mecanismo oculto, para logo ressurgir na aparência fetal, despedaçando-se e rebolcando-se em sangue. Essas cenas vivas passaram a afligi-la cruelmente, impossibilitando-lhe o necessário repouso.
O desenfreado desejo de vingança do adversário obrigava-o a ficar ao lado dela, enclausurando-a nas teias dos propósitos inconfessáveis de que ora se encontrava dominado, para levá-la ao suicídio.
Poderia a Providência Divina interromper o lamentável processo? Claro que sim! No entanto, a negação de Julinda ao amor e à oportunidade de ajudar tornava-se o epílogo de uma larga história... Era justo, portanto, que experimentasse o resultado da invigilância, aprendendo pelo sofrimento o que se negara conseguir pelo bem, através do serviço do amor a si mesma e ao próximo. (Cap. 4, pp. 39 e 40)
23. O amor é sempre mais benéfico para quem ama
Manoel P. de Miranda fazia essas e outras considerações quando Dr. Bezerra chamou-lhe a atenção para um processo psiquiátrico decorrente de problemas posteriores ao parto, denominado de “psicose puerperal”.
Tecnicamente, elucidou o mentor, a produção dos hormônios, que se faz normalmente, torna-se fator do desequilíbrio, em razão de os mesmos se transformarem em toxinas que, atuando no complexo cerebral, terminam por desarranjar a estabilidade psíquica.
Mesmo em fenômeno de tal ordem, meramente fisiológico, defrontamos o Espírito devedor, que volve à forma feminina sob a injunção do distúrbio para recuperar-se do mau uso passado das funções genésicas.
Observa-se, igualmente, que o desarranjo hormonal sucede em jovens e senhoras durante o período catamênico, alterando o comportamento, que tende à excitação psíquica para posterior queda depressiva.
O Espírito é sempre o responsável pelo corpo de que se utiliza, suas funções físicas e psíquicas, que decorrem das realizações pretéritas e do uso nobre ou vulgar, elevado ou pervertido que lhe atribuiu.
Dr. Bezerra informou então que, nessa condição de devedor, mais facilmente a pessoa sintoniza com outros Espíritos, situados na mesma faixa evolutiva, ou em condição inferior, perante os quais se encontra em débito, facilitando o quadro genérico das obsessões. Era esse o caso de Julinda, que somou às antigas uma nova e grave ação infeliz, que a jugulava, por natural processo de reparação, àquele a quem novamente prejudicou.
"Quando os homens compreenderem, asseverou Dr. Bezerra, que o amor é sempre mais benéfico para quem ama, muitos males desaparecerão da Terra e a etiopatogenia de inúmeras enfermidades diluir-se-á , sustando-se a erupção das mesmas.
Enquanto, porém, o egoísmo governar o comportamento, a dor se atrelar às criaturas, realizando o mister de conduzi-las para o equilíbrio, a ordem, o bem que são as fatalidades da evolução." (Cap. 4, pp. 40 e 41)
Angélica, a mãe de Julinda, foi visitá-la à noite, quando desdobrada pelo sono fisiológico, e ali, ao lado da enferma, orou. Ante a cena, o diretor espiritual informou que Angélica procedia de abençoadas experiências pretéritas, havendo-se reencarnado com a finalidade precípua e imediata de auxiliar a filha, Espírito rebelde que se ligara, havia muito tempo, a um grupo de Entidades irresponsáveis que lhe vampirizavam as forças.
"Nossa Julinda, acrescentou o mentor, provém, proximamente, de região infeliz da vida espiritual inferior, onde estagiou por largos anos... Ali se precipitou, em razão de abusos da sexualidade equivocada, mediante a qual cometeu graves delitos que a emaranharam numa rede de ódio e vinditas.
O nosso Ricardo (o filho abortado), a quem parece detestar, assoma do mundo de sombras como personagem viva da sua existência passada, debatendo-se num naufrágio emocional para o qual lhe solicitava salvação, mas de cujo desfecho temos conhecimento..."
Angélica, graças a seus méritos, intercedera a favor da moça equivocada, com o que a recambiara dos sítios expiatórios para uma Colônia socorrista, onde foi preparada para a nova existência. Assegurada a reencarnação da protegida, mergulhara no corpo físico, seguindo seu amado companheiro Juvêncio, que lhe deveria compartir a existência.
O irmão Juvêncio também granjeara muita simpatia no plano espiritual, por ser portador de excelente folha de serviços aos enfermos na Terra, em existências passadas, ao lado de Angélica. Sensibilizado pelos apelos da amiga e apiedado da situação de Julinda, conseguiu permissão para uma breve jornada corpórea, no plano físico, a fim de auxiliar a jovem invigilante.
Dr. Bezerra então comentou: "Uma reencarnação, por mais dolorosa e uma situação corporal por menos expressiva, para observadores apressados, resultam de cuidadoso labor em que se programam diretrizes e tomam-se providências várias com objetivos superiores. Os resultados, porém, porque a violência não está inscrita nos códigos divinos, dependem de cada candidato ao cometimento. Aqueles que se consideram e se afirmam abandonados pelo Senhor, invariavelmente refletem a ignorância ou a ingratidão que os intumesce com o vapor venenoso do orgulho". (Cap. 4, pp. 42 e 43)
“A publicação do estudo continuará
nas próximas semanas”